Por Toninho Rodrigues

Osasco completa 50 anos. Não participei nesse período da sua trajetória cultural, mais especificamente, de toda sua vida teatral. Mas fiquei pensando, buscando na lembrança a história do teatro que mais me agradou na Cidade de Osasco, a partir da minha chegada em 1970.

Sempre conversando com algumas pessoas a respeito do Teatro encenado em Osasco nos anos 70 e 80, período em que a Cidade produziu as mais diversas experimentações teatrais, e cito aqui uma das mais importantes: o Núcleo Expressão Produções Artísticas S/C Ltda. Um grupo sério, formado por jovens estudantes e trabalhadores, que encenaram em 1972 – Um Homem Chamado Jesus, no Largo de Osasco, a primeira encenação que assisti. Um espetáculo de conteúdo crítico, onde Ricardo Dias – meu primeiro Professor de Teatro, interpretou um Jesus Negro, numa encenação ocupada em trazer à reflexão as questões sociais e políticas… Um teatro como instrumento transformador da sociedade…

Foi a primeira manifestação interior que senti em relação ao teatro, e não tão distante assisti uma outra montagem do Núcleo Expressão, no CENEART – O Rio, de João Cabral de Melo Neto, onde fui tomado de vez pelo grande desejo de me tornar ator.

O Núcleo Expressão sai das ruas e ocupa uma sala de espetáculos: o Teatro Expressão, no Centro da Cidade, com o foco voltado para os estudantes buscando num primeiro momento formar um público para o teatro, trazendo os alunos para assistirem suas peças dirigidas por Rubens Pignatari, e assim, textos de autores nacionais consagrados ganharam a cena: A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo; O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna; Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto; Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri, entre tantas outras obras primas da Literatura Brasileira; e também espetáculos infantis, como  O Castelo de Mulumi,  O Velho e o Mar;  Libel, a Sapateirinha… E muitos e muitos textos voltados para as crianças.

Havia ainda no Núcleo Expressão, a preocupação com o público adulto, mais precisamente o da periferia, e surge aí o GENE – Grupo Experimental Núcleo Expressão, formado por estudantes, onde iniciei minha carreira artística, com o objetivo de levar espetáculos nas Sociedades Amigos de Bairro, Igrejas, e outras entidades, e para isso montou-se um espetáculo popular – O Auto da Cobiça, de Altimar Alencar Pimentel, baseado no Bumba-meu-boi, também visando formação de público para o Teatro.

Outras experiências importantes foram desenvolvidas nos bairros e surgiram outras manifestações teatrais, como o Grupo Espelho – dirigido por Daniel Pedro e Lú Silva, também com espetáculos populares, sempre com textos críticos, provocadores, como O Diabo Feminista (que participou também o Mestre Tiê), Pedacinho de Frango, Viva o Rei João…

E também foi e é importante a atuação da Cia. Teretetê, dirigida por Frank Delgado, com textos próprios e também de autores nacionais consagrados a exemplo de A Árvore dos Mamulengos, de Vital Santos. Um grande salve à Cia. Teretetê que ainda hoje desenvolve suas atividades artísticas em Osasco e Região.

Não se pode deixar de falar também da experiência desenvolvida no Jardim Santo Antônio pelo Grupo Neto, e pelo pessoal da Sociedade Amigos de Bairro (a Sedinha) – coordenada pelo Professor Enéas, e também do Grupo Trabuco, Cia. Cirandando, da Vila São José, dirigido pelo Isaias José da Silva – o nosso querido Zazá, do Raízes Cênicas – dirigido pelo Polako, do Semente – dirigido pelo Mariano, pelo Petrônio…

Outra experiência muito marcante aconteceu no Jardim Cipava, onde um grupo de artistas desenvolviam com crianças e adolescentes atividades não só de teatro, mas também de música e de artes plásticas. Um galpão para apresentações de shows e espetáculos, encontros para discussão e formação política, sala de leitura… Movimento que até hoje ainda reflete a importância da Vila dos Artistas no contexto cultural da Cidade de Osasco, coordenado pelo Raio, pelo Zé e a Baiana, pelo Samuel Batista, Paulo Neto e outros artistas.

Músicos, como Bilo Mariano, Zequinha, Reynaldo Luz, atores como o Cléris Tadeu, Dário Barbosa, Frank Delgado, e outros experientes atores que se exibem nos palcos da cidade e da região tiveram presentes na Vila dos Artistas, isto sem falar do Canto de Julho – encontro musical que reunia os artistas não só de Osasco, mas de várias regiões do país, hoje reeditado pela Secretaria da Cultura de Osasco.

O SESI também teve a sua importância no movimento teatral da cidade.  Peças Infantis e adultas foram apresentadas com sucesso, como Cinderela, Depois do Breakfast, Nó Cego, Morte e Vida Severina e tantas outras.

Hoje, a Cidade tem seu Teatro Municipal. E uma pergunta se faz necessária: cadê o Teatro da Cidade de Osasco?  Falo daquele teatro que se ocupava com a cidadania, com a transformação e avanço cultural e artístico de sua gente. O teatro como instrumento transformador, não o teatro cata níquel que fazemos. Cadê? Fala-se muito em formação de público, mas será que não devemos nos preocupar mais com a formação do artista do que do público? Formar público para quê? Para ver e ouvir Toló? Nosso público já não está formado?

Claro que se entende a necessidade da sobrevivência, já me pronunciei sobre isso em outro artigo, mas acredito que não se pode perder a referência de um teatro compromissado com a discussão social, voltado para o bem estar do homem. Afinal ainda há “homens caídos nas ruas”, e com certeza não estão bêbados, e espero que não estejam também famintos…

Como disse Sérgio Carvalho, diretor da Cia. do Latão, “o teatro não pode cumprir uma tarefa que não é dele, mas da política, da luta social, dos movimentos sociais, da organização crítica das pessoas em relação à vida. No entanto, ele é um símbolo disso, porque é muito difícil fazer teatro, assim como é difícil juntar pessoas para a política. É a mesma dificuldade de se juntar pessoas para fazer uma peça e manter essas pessoas trabalhando vivamente juntas. É um símbolo da dificuldade política e da necessidade da ação coletiva. Nisso ele também tem uma força de contágio, não é à toa que o teatro costuma ser vanguarda de certas organizações. O Teatro é a ponta da lança, porque ele agrega, ele traz as pessoas para a caminhada, porque ainda é feito por gente”.

Deixando a questão estética de lado, além das pessoas já citadas, não podemos deixar de expressar nossas homenagens a algumas pessoas e espaços que muito contribuíram e ainda contribuem para o Teatro de Osasco. Culturarte, Sentinela… Não podemos esquecer de Manelão, Otávio Domingues (Tatá), Inácio Gurgel, Nivaldo Santana…

Não podemos deixar de homenagear também aqueles que de alguma forma contribuíram e continuam contribuindo para o desenvolvimento teatral de Osasco: Moysés Américo, Genivaldo de José, Guina Vitória, Luiz Carlos Chécchia, Polako Ferreira, Ágada Alves, Horlando Basptistim, Eliabe, Maria da Paixão, Dario Bendas… E na pessoa de meu querido Mestre Ibsen Wilde sintam-se aqui homenageados todos os atores, técnicos, figurinistas, coreógrafos, diretores e professores de teatro que não citei.

Quero agradecer também aqueles que guardaram em imagens nossas representações, espetáculos, shows… Henrique Suzuki, Rômulo Fasanaro, Carlos Magno Cabral…

A Cidade em seu cinqüentenário, certamente se prepara para um novo tempo, para um novo futuro, mais voltado para as relações de bem estar de nossa gente, e a arte se desenha como um dos segmentos importantes para essa transformação, e assim o nosso Teatro deverá se enveredar por um caminho sem espinhos…Cheio de folhas verdes e flores lindas… Cheirosas… E que o perfume nos embriague e que Baco possa acompanhar nossas ações artísticas por muitas décadas.

Parabéns, Osasco!

E parabéns a todos os abnegados artistas que fizeram parte dessa história de 50 anos, e aos que ainda atuam nas artes cênicas da Cidade engrandecendo a memória do povo osasquense!

Anúncios

3 thoughts on “Memórias do Teatro em Osasco

  1. “Quero aqui, parabénizar Osasco pelo seus 50 anos e deixar esta pequena homenágem ao amigo: Ator, Diretor e grande homem de teatro e incentivador das artes, no nosso municipio. Toninho Rodrigues, Osasco muito lhe agradeçe pelos anos dedicados a nossa cultura. Parabéns pela citação acima, rendendo homenagens a todos aqueles que de alguma forma dedicaram seus talentos em prol de uma arte transformadora que é o teatro e outros segmentos,e que muito nos engrandece como pessoas. Um abraço do amigo, também ator…Dario Barbosa ( Ordálio )

  2. Meu dileto Toninho! Que prazer reencontrál-lo Prazer maior ainda é reencontrá-lo falando
    sobre teatro. Creio, Toninho, que é a única coisa que a gente sabe fazer de fato. Está em nõs. No âmargo. Você apenas se esqueceu de falar que fizemos o “Viva o Rei João” juntos.
    Aliás, foi ótimo contracenar com o talentoso ator que és tu. Momentos divinos – “maravilhosos” – diria o Caetano. Sim, meu confrade, fizemos história aí nessa cidade que, embora tão longe, ainda a sinto minha
    Excelente, a tua memória teatral osasquense. Fizeste uma síntese pertinente

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s