Por Flávia Dutra

Fui convidada pelo meu grande amigo Eli a escrever livremente sobre Teatro no Culturaoz.  Sim, escrever livremente sobre algo tão infinito e com tantas possibilidades é um grande desafio, mas por outro lado, por ser um ramo tão vasto, existem muitas coisas para serem ditas e eu posso começar pelo meio e depois voltar pro começo e talvez nunca chegar a um fim. E isto é mágico. Isto é, posso escrever sobre teatro por todos os dias da minha vida sem ser repetitiva e sem nunca concluir nada das coisas que comecei a dizer.

Confuso? É um pouco, mas vamos começar por algo que me aconteceu há poucos dias atrás.

 Fui convidada pelo meu marido a ir a uma premiação de cinema e fui toda contente porque o cinema é uma linguagem que para nós, atores de teatro, é muito instigante.

O local estava cheio e um dos garçons do lugar nos perguntou se um casal poderia sentar na nossa mesa conosco. E claro, respondemos que sim.

O casal ficou o tempo inteiro conversando entre si e eu e meu marido fazíamos o mesmo.

 Quando no meio da premiação o apresentador chamou o ganhador de um prêmio de filme de animação e o homem do casal da nossa mesa se levantou para recebê-lo.

Aí pensamos : Uau, estávamos o tempo inteiro sentados com um animador de cinema. Mas enfim, quando ele voltou o meu marido puxou papo – ‘’Parabéns, qual a temática do seu filme?’’

E papo vai, papo vem, ele nos perguntou se também trabalhávamos com cinema e respondemos que apesar de já termos feito alguma coisa, éramos atores de teatro. Aí ele disse que todo animador era umator frustrado, foi quando entrei na conversa com a seguinte frase. – ‘’Mas pelo menos a profissão de vocês ou se desenha ou se desenha, não dá pra enganar, já a nossa, vivemos o tempo inteiro perdendo papéis para enganadores e assistindo no teatro, na TV e até mesmo no cinema, pessoas que estão enganando a todos na cara de pau e que estão ali porque talvez estivesse na festa certa com as pessoas certas. O famoso Q.I.

Aí ele disse que concordava comigo mesmo achando que na área dele também havia sua cota de enganadores.

Bom, toda essa historinha que eu contei era pra chegarmos no ponto que eu queria.

Atores que enganam.

É muito difícil julgarmos com certeza quem está enganando, às vezes a pessoa é de fato apaixonada pelo que faz, mas não consegue ser bom ator/atriz. Mas como a vemos longe da plenitude em cena, achamos que ela está nos enganando ou tentando nos enganar.

Alguns desses atores melhoram com o tempo, temos vários exemplos disso em novelas, filmes e peças teatrais, mas de quem eu estou realmente falando, são daqueles atores que roubando, ou melhor pegando emprestado uma frase do nosso querido Constantin Stanislavski, amam a si mesmo na arte e não a arte em si mesmo.

Difícil? Bom, resumindo, estou falando daquelas pessoas que odeiam estudar, ensaiar, não ligam a mínima para o cheiro que o teatro tem e só pensam em uma única coisa, estampar o seu rostinho bonito em um personagem, que claro não pode ser qualquer um, tem que ser o protagonista porque o que a família vai dizer se ele fizer um coadjuvante.

Sim, nos meus anos de estrada já topei com vários desses narcisistas, que só atrapalham quem de fato AMA este ofício.

É claro, seu eu disser que eu e a maioria dos meus amigos atores não temos um ego um pouco inflado e também adoramos brilhar nos palcos, estaria sendo hipócrita. Somos sim, todos egocêntricos, mas com um porém que faz toda a diferença, AMAMOS o que fazemos, desde a leitura do texto até de madrugada, a construção da personagem, a ir na Ladeira de Porto Geral comprar tecido para os figurinos, a ficar ensaiando com fome até estar tudo perfeito, a chegar cedo no teatro no dia da apresentação porque queremos aproveitar cada minuto que temos disponível pra ficar neste espaço que nos sentimos às vezes mais a vontade do que em nossa própria casa e até os aplausos, sim os aplausos.

O amor a todas essas etapas nos faz atores que não querem enganar ninguém, porque mesmo com toda esta parte de ego e tal, amamos a arte em nós mesmos e amamos TUDO o que ela nos trás e não só a parte boa.

Depois desse meu desabafo, pergunto e você, o que pensa de tudo isso? Já enganou, já foi enganado? Conte-me suas experiências.

Com um carinho enorme.

Flávia Dutra


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5 thoughts on “Você pensa que me engana?

  1. Uau,põe desabafo nisso, eu estudei em tantos lugares, trabalhei com tanta gente que dizia isso ou aquilo e descobri nos estudos, nas leituras, na observação da natureza humana, que eu devia fazer o que eu acreditava e não o que me diziam. Nesse “fazer” atrai gente com o mesmo pensamento e metodologia de trabalho, mergulhei e molhei até a alma. Conheci os ensinamentos, as técnicas, as filosofias e as práticas de Stanislavsky, Stella Adler, Michael Chekhov, Robert Lewis, Eugene Vakgtangov e tantos outros, conheci a alma humana encarnada numa personagem com todas as suas nuances, com sua voz, corpo, sentimentos, com seus antecedentes de história de vida, e percebi tristemente que já enganei, enganei com a alma pura, mas enganei, mais triste ainda foi descobrir que fui enganado, hoje não mais, pois sei ler um ator, um diretor, dedico a minha vida a estudar a natureza humana e a arte de representá-la e hoje digo com orgulho, não sei nada,por isso estou sempre aprendendo, mas enganar, ai não, essa não, acredito que nunca mais.
    “Um ator não irá entregar-se por inteiro ao seu papel a menos que se deixe arrebatar pelo mesmo. Quando isso acontece, ele identifica-se inteiramente com o papel, e transforma-se.”
    Konstantin Stanislavksy

    Um grande abraço
    Djalma França

    1. Olá Djalma. Acho que você falou tudo. Há um momento na vida em que todos nós enganamos. Porém quando sentimos que estamos enganando a nós mesmos, aí é quando sentimos que precisamos mudar. Precisamos conversar com nós mesmos, sermos sinceros e responder a pergunta. ”E aí?”. Por isso que na arte, até conseguimos enganar as pessoas, mas até a página 2, porém quando a nossa consciência reclama, não tem mais jeito. Obrigada pela sua reflexão. Um grande abraço.

      Flávia Dutra

  2. Reconheço que já enganei quando fiz alguns trabalhos ruins que não levaram o público a lugar nenhum e nada me acrescentaram como ator; também já enganei quando me sujeitei a fazer coisas esdrúxulas e dispensáveis no palco por amor a arte e por gostar de fazer teatro. Mas o teatro ensina e depois dessas experências desagradáveis, aprendi que o palco não é lugar para modismos, caprichos e vaidades, muito menos lugar de brincar de fazer arte. Valeu, Flávia e até mais!

    Eduardo Luiz Silveira – Itapevi, 23 de junho de 2010.

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