Por Flávia Dutra

Ok. Um belo dia você está sem nada pra fazer e pensa que bem que poderia ter um hobby, algo que você possa fazer nas suas tardes ou noites livres.

Então você folheia o jornal, olha os cartazes pendurados na cidade e finalmente descobre uma Escola de Artes.

Ok. O primeiro passo está dado, você já descobriu onde irá praticar o seu hobby, agora chega a parte mais difícil, o que fazer?

A moça da recepção te mostra as opções, desenho, artes plásticas, ballet, teatro, violão, piano, dança contemporânea, etc.

Então você reflete qual seria a melhor opção. Bom, nunca você foi bom de desenho, sempre desenhou pessoas de pauzinhos e ainda assim saiam um pouco tortas, isso já exclui desenho e levando a coordenação motora que tinha quando desenhava já exclui também as artes plásticas, mas como você sempre gostou de música e sempre achou o máximo o garoto que levava violão pra escola e ficava cercado de pessoas cantando Legião ao seu lado, você de repente pensa que fazer violão seria uma boa. Então com o peito cheio de confiança diz a moça da recepção ”Eu quero fazer violão”.

A moça com o rosto complacente diz ” Sinto muito, mas as vagas para o violão estão esgotadas, por que você não faz teatro?”.

Ok. Então você pensa ‘’bom teatro, o que eu sei de teatro’’?

Lembra que gostava de ir ao teatro na infância nas excursões da escola, sempre assistia Rapunzel, João e Maria e outros contos e até achava mais interessante do que os programas que passavam na Tv. Talvez porque os personagens estavam bem mais perto de você e tudo que eles faziam no palco te faziam sonhar por semanas.

Então você pensa se existe a possibilidade de um dia você ser um daqueles personagens incríveis com o poder de fazer as pessoas sonhar e de repente se encontra perguntando os horários do curso.

Ok. Os horários batem com o seu e você enfim aceita e diz ” Por favor, quero me matricular”.

A moça explica que você precisa fazer um teste pra ver se está apto a entrar no curso. Então você pensa que não sabe nada de teatro e sendo assim como irá fazer um teste?

Ela lhe dá três autores de teatro que você provavelmente nunca ouviu falar e pede pra você trazer uma cena de dois minutos de algum texto desses autores.

Você procura, procura e de repente você encontra o texto ideal e passa a semana decorando e ensaiando, olhando em frente ao espelho. Eis que chega o dia do teste e você despeja todo o trabalho que você fez com aquele texto, se achando o máximo porque está fazendo teatro na frente de alguém que irá dizer se você está apto ou não para aquele ofício.

É claro que você nem imaginava que aquela pessoa não estava procurando por nenhuma excelência, uma vez que você queria apenas iniciar nesta área e ela sabia plenamente que não podia esperar muito de você e é mais claro ainda que mesmo você estando no auge do orgulho por estar ”interpretando” naquele momento, você não sabia que você ainda era muito ruim e que iria melhorar muito com o passar dos anos.

Dia do resultado. Aprovado. Uau, não é que você é bom mesmo.

Primeira aula de teatro, o professor fala tanto e cita tantos nomes, será que um dia você conseguirá ler metade dos livros daquelas pessoas que o seu professor fala e que você nunca ouviu falar?

Fim do ano, você faz uma peça de formatura, sua família vai, você se sente uma estrela e até ganha um jantar de comemoração. Mas no meio do jantar você está aéreo, estranho e começa a passar um filme na sua cabeça.

O que está acontecendo com você? Era pra você estar feliz, a sua peça foi um sucesso, você já conhece um pouco pelo menos de dois daqueles nomes que seu professor citou na primeira aula, você já sabe que teatro não é simplesmente subir no palco, você precisa estudar sempre, você aprendeu como projetar sua voz e até já sabe como usar o seu corpo melhor. Expressão corporal não é isso?

Enfim, você aprendeu tanta coisa, experimentou tanta coisa, foi tudo tão bom, então qual é o problema? Puxa vida, curta o seu jantar.

Até que você vai deitar, respira e tenta não pensar em nada. Aí no meio da noite você acorda e entende tudo.

Você está completamente apaixonado. Mas não, não é por aquela pessoa que estuda com você, você está simplesmente e perdidamente apaixonado pelo Teatro. Levando em consideração que em um dia você já se deu conta que perdeu a fome e o sono por causa dessa paixão, você percebe que esse sentimento é muito poderoso e que você precisa tomar uma providência, afinal o seu curso acabou, a peça de formatura também e você não consegue mais ser capaz de viver sem aqueles dias de ensaios puxados, de experimentar figurino, e até das coisas não tão boas, como as broncas do professor, do dia que você chorou em casa porque sua cena ficou horrível.

Então com um pouco de sorte, você entra em um grupo de Teatro, entra em um curso profissionalizante ou em uma faculdade de Teatro.

E depois de mais de dez anos você já consegue conversar de igual pra igual sobre todos aqueles nomes com o querido professor que te apresentou um mundo que você não consegue mais viver fora.

E hoje você é um profissional e aquela paixão toda era tão especial que mesmo não tirando mais sua fome e nem seu sono, ainda está viva como no primeiro dia e ela consegue coexistir com o amor que é um sentimento sublime, calmo e que te dá paz. Quantos paradoxos não é mesmo?

E hoje pode ser que por uma série de dificuldades você não esteja tão perto do Teatro assim como gostaria e seu coração dói de tanta saudade. E tudo que te resta são as lembranças de tudo o que você já fez e o que te conforta é o ato de lembrar das centenas de olhos daquelas pessoas que você fez sonhar. Tal qual o plano inicial, lembra?

Mas quer saber… sempre há tempo de recomeçar. Vamos pro segundo ato?


3 thoughts on “Começo, meio e arte. Sempre mais arte.

    1. O texto da Flávia Dutra é o relato da história de milhares de jovens que como eu mesmo, por incentivo de alguém, decidiram fazer teatro. Entrei no teatro de Itapevi depois de participar do Mapa Cultural no ano de 2003 na categoria Poesia e infelizmente, devido aos estudos e ao trabalho, esse ano estou sem tempo de fazer teatro. Ser artista é muito mais do que fazer sucesso e receber aplausos, é transformar, edificar, acreditar e por que não lutar por uma vida e um mundo melhor através da arte. Milhares de jovens em Itapevi, Osasco e região estão se tornando pessoas melhores e fazendo a diferença na sociedade porque escolheram e acreditaram no caminho da arte. Um grande abraço a você, ao Toninho – grande Toninho! – que conheci quando fiz um ensaio aberto aí no Espaço Grande Otelo (peça sobre Castro Alves) e a todos os artistas dessa cidade. Fazer arte é difícil, mas é muito bom e depois que se começa a fazer arte, a vontade é continuar pelo resto da vida!

      Eduardo Luiz Silveira. Itapevi, 30 de abril de 2012

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