“Para não dizer que não falei de flores”

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Por Eliabe Vicente

Em diversas cidades do Brasil estamos vivenciando o descontentamento dos artistas com a realidade que é fazer e viver da arte. As politicas culturais são direcionadas para interesses políticos, sem o mínimo de respeito, consideração e que não contempla os fazedores de arte.

São editais vazios de conteúdos e sem o mínimo de ajuda financeira e estrutural para as produções. Tem cidade com Editais que chegam a ser uma piada: O grupo que participa do Edital tem o direito somente à data do teatro, tendo que arcar com despesas de divulgação, público e até de equipamentos, pois os espaços públicos estão sucateados. É uma vergonha.

Existem Secretarias de Cultura de diversas cidades, que através de seu secretário, tem a cara de pau, de pedir para os grupos, ainda uma contrata partida, ou seja, como se não bastasse para os artistas, bandas e demais, terem que se preocupar com toda a produção, com público, ainda tem que fazer uma apresentação de graça para a secretaria ou para o secretario, simplesmente para uso de um espaço no qual tem direito? Quando deveria ser ao contrário, e existir politicas de contratação e valorização das produções, com ajuda de custo e divulgação das ações?

A utilização dos espaços públicos é um direito dos artistas e produtores culturais e um dever da administração pública. Esses espaços devem estar equipados e dotados tecnicamente com infraestrutura adequadas para as manifestações artísticas.

Em algumas cidades vêm-se manifestações nas redes sociais, o que ainda é muito pouco. Assim como aconteceu com a tarifa pública dos transportes, os artistas devem se mobilizar e cobrar melhores condições e politicas culturais contemplativas e que atendam as necessidades da população e dos artistas.

Será lindo ver o Brasil de norte a Sul, com suas cidades e principais avenidas tomadas de artistas demostrando suas artes, habilidades e manifestações, com máscaras sim, mas as máscaras do teatro, quando houver necessidade, o nariz vermelho de palhaço, mas com hora e local determinado, e feliz, sem sentir-se enganado. Artistas unidos pelo amor à arte.  A arte como forma de protesto. Gratuita, para todos.  Já imaginou a cena, o Brasil parando para apreciar arte de graça nas ruas?

Pode ser um sonho utópico, mas se são os sonhos que nos move, continuo me movendo, mesmo que seja para escrever esse artigo e que ele seja já, por si mesmo, uma forma de protesto.

Essa é a hora. Ano que vem é ano de eleição e está na hora de cobrarmos essa pauta dos políticos que nos representam e não só cobrar, como fiscalizar o tempo todo.

A arte e a cultura deveriam ser tratadas como uma necessidade básica do ser humano. Assim talvez, teríamos o mínimo de atenção necessária para essa área que é olhada com desprezo, desrespeito e que não é cobrada veementemente dos nossos governantes em todas as esferas, municipal, estadual e federal.

Para continuação da nossa reflexão, sugiro a letra sensacional da música do Titãs:

Comida (Marcelo Fromer, Sergio Britto, Arnaldo Antunes)

“A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…”

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15 thoughts on ““Para não dizer que não falei de flores”

  1. Parabéns pelo texto Eliabe. Realmente a cultura popular só é lembrada em época de eleições ou quando alguma grande empresa se apropria de seus signos para serem usadas em campanhas publicitárias. A ideia da indústria da cultura” só veio piorar a realidade da exata falta de cultura de nossos governantes. Quando digo falta de cultura, não estou me referindo se a pessoa vai ou não ao teatro ou a um cinema. Estou falando da milenar transmissão de conhecimentos, afetos, educação, observação, contemplação que se traduzem em ações que promovem ou não as artes, a beleza simples da vida ou os próprios ferramentais artísticos de um povo, de uma nação. O que mais vemos são cargos em secretarias de cultura serem ocupados por pessoas desmotivadas, elas mesmas desinteressadas em conhecer os artistas de sua cidade, estado ou até do país. Geralmente os indicados para os cargos de secretário (a) de cultura são pessoas que atendem todos os “requisitos políticos/favorecimentos” e estão muito longe de saber o que é um Política Cultural de verdade. O que mais me entristece é saber que ano que vem teremos eleições e novamente aparecerão pessoas falando “em nome da cultura” e que, depois de eleitas, farão o de sempre: eventos, shows, festas e não vão dar um pingo de atenção para os artistas de rua, os artistas alternativos, os artistas experimentais, os artistas das ruas, os fazedores de cultura das periferias, enfim, toda aquela gama de pessoas sensíveis e batalhadoras que fazem Cultura (sim, com C maiúsculo) todos os dias! O que virará esse jogo é a união da classe num esforço para se fazerem ouvir, se enxergarem como agentes culturais vivos e comprometidos em não deixar que a vulgaridade, o supérfluo, o vazio e simplesmente o comércio feroz da massificação destrua o que o Homem tem de mais significativo: seu imaginário, seu lúdico e seu inventivo que tornam a vida algo mais inteligente e rico de viver.Abraços, Cabeto Rocker- compositor/produtor cultural

  2. Concordo Eliabe! Infelizmente não vemos o poder público devolvendo uma mínima fatia de nossos impostos em benefício de nossa cultura, das manifestações artísticas. Vemos o aumento da burocracia para a utilização dos espaços que deveriam ser públicos e não são na prática, e vemos também locais totalmente desestruturados para receber espetáculos teatrais e demais manifestações artísticas. De fato, temos que nos mobilizar e fazer valer o direito que temos, que é o acesso irrestrito a cultura. Enquanto os nossos sonhos maiores não forem possíveis, que possamos correr contra o tempo para tornar reais os sonhos mais próximos. Espero que este protesto ecoe para muito além de nossa fronteira municipal, e que ganhe proporções que vão muito além de nossos sonhos…

    1. Desculpe, mas, todos sabemos tudo isso, o que diz o texto e a sua posição corroborando. Então, e a solução? Não é comodo ler, concordar e digitar um texto aqui? Alguém que decide, vai ler esse comentário? E se ler, vai agir pra mudar? IMPROVÁVEL!

      1. Dorival, que bom que você também passou por aqui! Os sonhos movem o mundo. De certo que queremos que todos os responsáveis por cultura leiam, e lendo, no mínimo tomem atitudes positivas que resultem em melhorias. Mas a escrita e a leitura não são fatos isolados. É pouco. Talvez, estejamos falando sobre o óbvio, porém, tem horas que até o obvio tem que ser lembrado. Não tenho a solução para esse problema, longe de mim, mas acredito, que se fizermos a nossa parte que é cobrar, fiscalizar e lembrar que é um dever do estado e não um favor politico, talvez consigamos deslocar minimamente a direção do vento. Também não acreditava mais em mobilizações pós caras pintadas e tive uma grata surpresa com a juventude indo as ruas e reivindicando o direito de uma tarifa justa para um trasporte público precário. A minha opinião é que o transporte continua caro, para o pouco que oferece, mas uma mobilização fez com que ele não ficasse ainda mais caro. De volta para a cultura, acredito que organizados podemos reivindicar mudanças e melhorias para a área da cultura, se não melhorar em 100%, podemos evitar que não piorem em mais 20%. O que sugiro nesse contexto é que mostramos nossas caras para que as autoridades competentes vejam que não estamos acomodados, indiferentes e nem tão poucos cansados de lutar em prol da causa. Podemos fazer isso através da escrita, e compartilhar para o maior número de pessoa, podemos fazer isso no boca-a-boca e podemos fazer isso também de corpo presente com manifestações artísticas em diversos lugares. Não acredito que isso seja o suficiente ou a solução para todos os problemas, mas pode sim, ser um inicio de uma grande mobilização em prol de uma causa. Se vai ser eficiente ou tratará resultado concretos, só veremos na prática. Vamos juntos?

  3. Cara, parabéns pelo testo, ele esta muito bom e reflete uma realidade brasileira triste. O descaso com o poder público com o incentivo a arte e os artistas!!!
    Concordo com sua visão e seu ponto de vista!

  4. Cabeto, muito obrigado por enriquecer o nosso bate papo sobre arte e cultura. É fato que os cargos de secretario de cultura e toda estrutura que os cercam são pensados politicamente. Não há o mínimo de pensamento e nem de interesse nas politicas culturais e nos artistas da cidade ou da região. Leis de incentivo a cultura, valorização dos artistas, são palavras estrangeiras para os que lá estão. Infelizmente, sabemos que é uma discussão antiga e pouco foi feito até agora, mas podemos plantar aqui uma semente, para que saibam que não estamos dormindo e que estamos incomodados com o marasmo. Nosso protesto é através da arte. A arte já nasce transgressora. Que possamos através dela, mostrar nosso incomodo e nossa insatisfação, nem que para isso, seja preciso tomar as ruas com manifestações artísticas gratuitas.

  5. Elias, é só o que temos visto: espaços públicos esquecidos e abandonados, nenhuma forma de investimento na área da cultura. É triste saber que pagamos por isso. É o nosso imposto. Não estamos pedindo nada mais do que o nosso direito a ter arte e cultura. Não é um favor, é uma obrigação do poder público. Vejo também, que a solução está em nossas mãos. Devemos ir as ruas, tomar praças e avenidas e apresentar, publicamente e gratuitamente nossas artes. Esse será o nosso grande protesto, o nosso grito. Em resumo, assumo que também temos culpa nisso, de aceitarmos tudo e ficarmos calado. Está na hora de gritar. Nosso grito é nossa arte. Bora fazer barulho?

  6. Acho muito importante a cobrança por parte dos artistas. Em Osasco, há uma nova mentalidade na gestão pública. O que é muito positivo. E, mesmo assim, acontecem as falhas. E vejo artistas se manifestando, reclamando, colocando princípios acima de personalidades. Espero que continue assim.

    1. Jesse, que bom que tem observado e acompanhado esse movimento. É positivo quando não há uma acomodação. Se há cobranças, é por que algo precisa melhorar. Também espero que esse movimento continue. Assim, teremos sempre mais melhorias, sobre tudo, para a área de cultura. Forte abraço.

  7. Parabéns pelo texto, não podemos deixar isso do jeito que está, caso contrario só tende a piorar!!

    Em Osasco, além de tudo isso, obrigatoriamente depois de uma apresentação de teatro, temos que depositar para a prefeitura, 10% do lucro da bilheteria. Ser artista, e viver de arte num lugar aonde o poder público além de não ajudat, ainda atrapalha… Não é fácil, nada fácil… Temos que mudar isso!! Parabéns pela iniciativa Eliabe, vamos movimentar isso!!

    1. Thalita, o questionamento que faço é para onde vão os 10%? Se os espaço são públicos eles já devem ser subsidiados pela prefeitura. Se vão para algum fundo, onde são aplicados? E por que não há Editais de fomento na cidade, onde o grupo ao invés de pagar para se apresentar, recebam pela apresentação? Não é normal que até os artistas da cidade acham que está tudo bem. Ao menos que haja interesse particular, daí, neste caso, não avançamos mesmo enquanto movimento. É preciso parar, refletir e exigir mudanças.

  8. Eli. Eu sei que sempre podemos fazer mais, mas vejo que você não possui apenas palavras , você já fez e faz muito pela Cultura de Osasco. Começando pelo festival de poesia que sempre foi um festival paralelo, na maioria das vezes sem nenhum incentivo da prefeitura e com esse festival você indiretamente incentivou muitos talentos. Eu posso me colocar no meio dessa estimativa, porque muito do que eu sou hoje, eu devo a você e às coisas que você me ensinou. Como amar a arte e lutar por ela custe o que custar. Eu, acredito que assim como você, também sonho que um dia possamos viver em um mundo em que todos sejam iguais e tenham os mesmos direitos, e com isso, é claro, todos teremos acesso a arte em todas as esferas, porque todo o resto como saúde e educação, já estariam funcionando como se deve. Eu sei que isso talvez possa nunca acontecer, mas como você citou um trecho de uma música. Vou citar outro trecho de uma outra música.

    ”You may say, I’m a dreamer, but I’m not the only one” John Lennon

    1. Flavia, bom ver seu testemunho por aqui também. É importante saber que outras pessoas também sonham como nós e que não somos os únicos. Que possamos muito em breve vivenciar essa realidade que possa ser que não atinja em 100%, mas que se melhorar em 10%, já terá começado algo. Se as oportunidades artísticas são capazes de transmitir saberes e transformar vidas, quem lutar por isso não estará fazendo um favor, mas sim um bem para a humanidade. Estejamos juntos nessa causa.

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